domingo, 27 de março de 2011

XIV

para a rosa, assim com jeito e sem jeito, estes versos de ricardo reis



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos / Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. / (Enlacemos as mãos). / [...] / Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, / Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, / Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro / Ouvindo correr o rio e vendo-o.

XIII

Eis o humano do romantismo: fenómenos do afecto, expressão esta, entre outras, grata de Camilo. Pode ler-se no Santo da Montanha. Não temos apenas paixões ficcionadas - isto era o que se imaginava na imaturidade. O que temos nas suas novelas é o humano, é a vida com todas as suas contrariedades, com os seus altos e baixos. Simplesmente a vida. Esta é a verdade dos dois mundos. Para além disso, tudo é mentira, máscara. Na continuidade do XI e XII.

XII


Cada vez mais me convenço que a literatura que perdura, a ficção que perdura, é aquela que transmuta a violência do humano, com todas as suas metamorfoses implícitas. Para sermos, ser, mais suaves, uma violência passiva que é activa, o mundo possível da ficção, passiva na medida em que representa a nossa face, o nosso rosto. Activa, na medida em que representa nessa idealidade ficcional as revoluções da interioridade, convulsões únicas que fazem o mundo, o nosso, não outro. Nesta perspectiva, considero Camilo mais sublime que Eça. Para a renovação dos estudos camilianos. Tal é necessário. Ora, o que Camilo nos imprime nas suas novelas, nos seus folhetins, nos seus romances é, precisamente, essa violência do amor, essa violência da sensualidade amorosa que ultrapassa todos os tempos do mundo, que transporta o humano para um mundo que não é o dele e que, no fundo, acaba por ser o dele mesmo, ressalvando-se, acima de tudo, uma fenomenologia do amor com todas as suas virtudes e defeitos. As virtudes e o defeito do humano. O que Camilo nos propões não é a questão da felicidade: esta é um meio para aquilo que denomino a fenomenologia do amor. O humano, sempre o humano, as suas atitudes comportamentais. Para uma filosofia do sentimento, nas palavras de Paul Ricouer. Sem lamechices. Depois, Camilo é um mono-língua. Fidelizou-se ao seu princípio de uma mono-língua, que é sua, que é a nossa. Eça, por seu turno, é tri-língua, a sua (a de origem), a inglesa e a francesa. Triplicou-se. Camilo não. Camilo multiplicou-se, transmutou-se linguisticamente nas personagens que criou. Recriou dois mundos: o da sua interioridade e o da sua exterioridade. Exemplo, o céptico, o estóico e o epicurista Guilherme do Amaral. Também Pigmalião, porque não? Acima de tudo Pigmalião. Aliás, Camilo, ele próprio, na introdução apologética para a sua Divindade de Jesus, acaba por nos dizer duas coisas interessantes, das quais os camilianistas pouco ou nada dizem: i) "Contava com a graça divina para lutar e vencer, vencer-me a mim, o mais inexorável inimigo que ainda tive."; ii) "a fugir de mim próprio", isto é, quando Camilo se instaurava fora dessa graça divina fugia de si próprio. Entre uma interioridade inimizada consigo próprio e uma fuga interiorizada, o nosso autor transporta-se para a sua criação, nas personagens por ele idealizadas. Na continuidade do XI.


XI


quando amamos, quando somos amados, ou quando supostamente imaginamos e sonhamos que amados somos, atingimos a eternidade. O amor é, por si só, a eternidade da excelência, a perenidade do quanto o humano tem de melhor para oferecer às gerações futuras. É tudo uma questão. Nesta questão temporal, o escritor renomeia para idealizar um mundo cada vez mais humano. A eternidade do mundo é o amor, nada mais.

sexta-feira, 25 de março de 2011

X portugal


"A Nação está como um casal desmantelado pelas dissipações do seu chefe, onde um dia entra a doença ou o desastre. Que desespero! Nada se previu e se acautelou, nada se dispôs para o momento do perigo."


Bernardino Machado, Lógica dos Acontecimentos, 1910

quinta-feira, 24 de março de 2011

dedicatória surrealista


renovo apenas o dizer de cesariny para os dias da semana, circulares e bipolares, assim, com jeito e sem jeito, para a rosa, com estes versos de mário henrique leiria: "qualquer distância / entre tu e eu / é a única magnífica existência / do nosso amor que se devora sorrindo". e acrescento, alterando também, não se devora, mas sim como uma escada que vai subindo e sorrindo, no aconchego do sonho até a um possível real, entre dias coloridos e cinzentos, abertos e fechados, e de linha directa e assim sem jeito...

sábado, 19 de março de 2011